Estes são os Blogues dos que amam Angola

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terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

O que acontece em Angola (vergonhoso)


Viver em Angola requer um elevado grau de paciência e calma. Sendo este um país com menos de 40 anos de idade e vítima de várias guerras desencadeadas ainda antes da sua independência e levadas a cabo até mesmo a década que findou, a realidade que aqui se vive é atrofiada. Nota-se porém, um esforço genuíno no desenvolvimento de certos aspectos deste país. Sempre que visito deparo-me com novos edifícios, estradas, empreendimentos, restaurantes, hotéis, e por aí em diante. Hoje gozo de internet wireless de banda larga quando a meros aninhos só tinha net por cabo. Prolificam-se as multicaixas (ATMs), mais e mais lugares aceitam cartões Visa, e nota-se uma grande variedade de novos negócios a abrirem-se, muitos deles com capital estrangeiro, o que denota a presença do sempre importante investimento externo. Há também muitos negócios a abrirem-se com capital somente angolano, mostrando que temos uma valente veia empreendedora. Até mesmo o ‘glorioso’ aeroporto 4 de Fevereiro já demonstra sinais de não ser o pior aeroporto do continente. Isto para não falar nas obras exemplares do aeroporto de Lubango, ou a nova estação ferroviária de Malange...

Mas, infelizmente, continuo a constatar que não obstante todo este desenvolvimento ‘físico’ e infra-estrutural, o nosso desenvolvimento mental continua o mesmo, ou mesmo, pior ainda. Ás vezes parece-me que neste prisma, regredimos. Os nossos comportamentos uns com os outros, as nossas atitudes e a nossa mentalidade não está a acompanhar o tipo de desenvolvimento que descrevi acima. E é aí onde se torna necessário a tal paciência e calma para se viver aqui, porque cada dia deparo-me com verdadeiros atentados a decência humana. São várias as coisas que me fazem confusão a cabeça, que me fazem levar as mãos ao nguimbo em puro desespero. Leia então, abaixo, os sete pontos que me fazem muita confusão na cabeça.

1. A nossa arrogância

Noto em nós uma grande arrogância para com outros países africanos e o mundo em geral. Talvez por estamos a fornecer petróleo às verdadeiras grandes potencias mundiais, nos subiu a cabeça que também somos uma potencia mundial e como tal todo mundo deve subjugar-se aos nossos pés. Ou talvez é porque a nossa economia cresce aos dois dígitos enquanto o resto do mundo afunda-se numa grave crise mundial. Por altura da União Europeia ter banido a TAAG dos seus céus, junto com dezenas de outras empresas aéreas mundiais, em vez de seguirmos o exemplo dos outros países que viram as suas companhias aéreas banidas e partiram logo para a reestruturação das mesmas, a nossa primeira reacção foi aplicar medidas de reciprocidade, sem termos razão para tal.

É verdade que somos o segundo maior fornecedor de petróleo da África subsaariana e que a Nigéria esta rapidamente a perder terreno. É verdade que na SADC somos uma potencia no verdadeiro sentido da palavra, e que nesta região só mesmo a África de Sul detém uma maior economia, mais poderio militar, etc. É verdade que estamos a fazer subir prédios altos e a construir estradas.

Mas o que é realmente ser uma potencia? O que é realmente o desenvolvimento? Há dias quando estava enfiado num buraco em pleno bairro Palanca, acabado de sair de igual buraco no bairro do Golfe, olhei ao meu redor e admirei o nível da verdadeira miséria e a quantidade de lixo que a grande maioria de luandenses enfrenta todos os dias. Nestes bairros, onde a comida é vendida ao lado do lixo, é difícil notar o crescimento da economia. Quando chove e o teu carro entra numa cratera viscosa em pleno Mártires, numa rua que nunca foi asfaltada, é difícil perceber que estamos na cidade mais cara do mundo. Estamos sempre a subir? Desenvolvimento? Potencia mundial? Será que são os prédios que estão a nos iludir? Basta sair do círculo restrito da capital onde acontecem todas as obras e ‘dar uma volta’ por aquele mar vermelho luandense de terra batida, onde acaba o asfalto (passar a fronteira, como diz o meu primo) para perceber realmente quanto falta por fazer.

A humildade faz bem.

Um dos muitos marcos que se usam para definir o grau de desenvolvimento de um país é o seu serviço de telecomunicações. Quantas pessoas têm acesso a telefones celulares? E a internet? Quantos subscritores de banda larga fixa existem por cada 100 habitantes? Temos aqui mesmo ao lado de nós países muito menos arrogantes que ostentam um nível de vida muito superior ao nosso, estando também muito mais ligados ao mundo. Só aqui na SADC, em 15 países, Angola surge em numero 11 em utilizadores de internet por 100 habitantes, com 3,28. A lista é liderada por Seychelles, Ilhas Maurícias, e Zimbabué. Cabo Verde: 29,67. No que toca a subscritores de banda larga fixa, Angola surge outra vez na 11 posição, com 0,11, numa lista novamente liderada por Seychelles, Ilhas Maurícias, e Zimbabué. Cabo Verde: 1,38. (números tirados de um artigo da Revista Exame número 11, Dezembro/Janeiro 2011)

Portanto, isto serve para dizer que antes de nos arrogarmos a tentar provar a todo mundo que somos um país desenvolvido, é bom providenciar aos nossos cidadãos serviços básicos das mais diversas índoles. Não ouvimos discursos musculados vindo dos países citados acima (de bem que Zimbabué foge a regra). Somos sim uma potencia, mas ainda nos falta traduzir este potencial para actos concretos que melhoram a vida do cidadão comum.

2. A Policia Nacional

Certo dia estava com os meus primos a sair de Talatona para o centro da cidade. Pelo caminho, em plena estrada da Samba, o nosso carro avariou. Teve que vir um outro primo puxar o nosso carro desde lá até a Maianga, uma tarefa árdua para quem conhece a maneira ‘linda’ como o luandense conduz. Ainda por cima era um jipe a puxar o outro. Nas imediações do prédio da Sonangol, depois de todo aquele caminho andado e a meros minutos de casa, surge um policia num destes Audis novos com que eles agora adoram fazer banga. Transcrevo a conversa que sucedeu:

PT (Policia de Trânsito) – Carta de condução e documentos da viatura.

V (Victor, meu primo) – Aqui estão senhor agente. Fiz alguma coisa de errado?

O agente olha para os documentos (em dia) e para a carta de condução (também em dia). Olha para os dois carros, um a puxar o outro.

PT – BI se faz favor.

V - ...não tenho o meu BI comigo, senhor agente.

PT – O motorista não sabe que não pode conduzir sem o BI?

V – Não, senhor agente, isto nunca me foi dito na escola de condução. Será que isso é uma nova lei? Aonde é que está escrito?

PT – Escrito? Não é preciso estar escrito, podes perguntar a qualquer pessoa e eles vão te dizer que não podes conduzir sem BI.

V - ...

PT – E aonde está o triângulo da viatura?

V – No porta bagagem, senhor agente.

PT – O motorista não sabe que não pode rebocar outro carro sem mostrar devidamente o triângulo?

V – Não sabia, senhor agente. Mas tenho os intermitentes dos dois carros ligados e como viu estávamos a andar devagar.

PT – Sem o triangulo à mostra pode matar gente! O senhor está a pôr em perigo a vida dos outros motoristas!

V - ...como Sr. Agente? Estou com os intermitentes ligados e a anda a uma velocidade bastante responsável!

PT – O senhor vai ter que pagar multa por pôr em jogo a vida dos ouros motoristas. Siga-me por favor.

V – Com os dois carros!?

PT – Sim senhor, com os dois carros.

Não fazendo mais menção do tal triângulo assassino, e com os documentos do Victor na mão, o policia mandou-nos seguir o seu carro com os nossos (!) e bastou fazer mais duas ou três curvas, a corda que puxava o nosso jipe estalou. O policia mal abrandou e foi-se embora. Com os documentos do Victor.

Não obstante termos resgatado depois os tais documentos, é por essa e por outras que a policia nacional angolana me faz confusão na cabeça. Ou seja, numa sociedade aonde o cidadão comum tem quase tanto medo da policia como o bandido, algo vai mal. Em vez de ter a segurança social como a sua primeira preocupação, o agente preferiu nos fazer a vida negra. Não custaria nada nos ajudar, pondo o triangulo por cima do carro, por exemplo. Mas optaram pela opção que mais nos complicaria a vida. O grau de corrupção na policia já atingiu graus cómicos: no outro dia o meu primo estava no candongueiro quando este foi parado por um agente. O agente fez se a janela do motorista, e este tentou dar-lhe os seus documentos.

“Documentos?!”, perguntou, incrédulo, o agente. “Vocês estão sempre na ilegalidade. Não é documentos, você já sabe o que tem que fazer,” disse o agente, levando consigo os documentos do motorista. O motorista sai do candongueiro com uma nota de 1000 kwanzas na mão, e volta poucos minutos depois com os seus documentos.

Histórias como essa, todos nós temos, e aos pontapés. É verdade que os policias ganham muito pouco. Mas o abuso que nos fazem já começa a ser ridículo.

3. Os nossos preços

A nossa realidade socioeconómica faz com que a vida em Luanda seja cara. Não há como escapar isto. É uma simples lei económica: quando a procura é maior que a demanda, os preços sobem. Com o nosso crescimento económico e o constante influxo de expatriados, não vejo os preços a desceram tão cedo. Agora, uma coisa é certa. Há esta realidade, mas também há a especulação. O que me faz confusão na cabeça é esta especulação, que faz com que, por exemplo, um melão na Casa dos Frescos custe mais que $100. Muitas das vezes a sede para lucros fáceis e rápidos faz com que vários empreendimentos pratiquem preços altamente injustos.

Sinto também que existe um foco desproporcional para com a clase média alta e clase alta por parte de investidores privados tanto nacionais como estrangeiros. Pergunto-me se há mesmo dinheiro suficiente neste país para as tantas casas de alta renda e condomínios de luxo que se constõem por toda Luanda e não só. Será que é sustentável? O mercado aguenta? E quando esta benesse vinda do petróleo acabar? Dizem os mais esclarecidos que aqui há mesmo este dinheiro todo...só me resta esperar para ver. Para pôr as coisas em perspectiva, o futuro penthouse da Torre Ambiente, a ser construída na Marginal, custa $9 milhões e parece ser o apartmanto mais caro do continente...a penthouse no sexagésimo andar do One Rincon Hill, a torre mais alta de São Francisco, custa $3.3 milhões.

4. Falta de investimento na educação

Por mais dinheiro que o estado faça (e olha que o PIB está em franco crescimento de ano para ano) a fasquia destinada a educação continua a ser irrisória: 4,4% para o ano 2011. O valor da educação no desenvolvimento de um país é de extrema importância, e todos os dias vemos as causas directas da fraca qualidade de educação no país. Na semana passada estava uma amiga a contar-me sobre a corrupção gritante na universidade onde estudava, corrupção esta que a levou a deixar o país para estudar fora, porque já não aguentava mais. Fizemos juntos uma pesquisa na net e chegamos a conclusão que em várias listas das 100 melhores universidades em África, nenhuma é angolana. Algo está podre no nosso sistema de educação, e não vejo ninguém de direito a colmatar esta grave lacuna.

5. O serviço ao cliente/consumidor/cidadão

Isto já nem deve ser novidade para vocês, e nem vou falar muito sobre isto. Aqui em Angola o conceito de customer service parece não existir, e ponto final. Abrem novas lojas, novos restaurantes, novos serviços e o atendimento parece ser o mesmo: os funcionários nos atendem mal, respondem mal, actuam como se estivessem a nos fazer um grande favor. É stressante. Não sei se o salário é pouco, mas em países mais pobres que Angola ou pelo menos no mesmo patamar, nunca fui atendido assim. O que custa atender condignamente um cliente? O que custa prestar-lhe um serviço personalizado? O mesmo sucede com o atendimento ao cidadão por parte de funcionários públicos. Quase nada é feito sem a gasosa. Esta prática está enraizada no nosso dia a dia. Mesmo assim, custa-me aceitar que é mesmo assim que as coisas funcionam. O conceito de que eu tenho de pagar um funcionário público para que faça o trabalho que o seu salário exige, faz-me confusão na cabeça. E sabendo que eu terei de pagar gasosa, se pelo menos me atendessem bem...e isto leva-me ao meu ponto seguinte:

6. A ‘complicação’ às pessoas

Todo angolano e não só saberá exactamente do que falo. O angolano adora complicar o outro. Neste país, a mais fácil tarefa ou procedimento vira logo um bicho de sete cabeças e vários dias perdido no trânsito. Vais renovar um documento, falta-te qualquer coisa mínima, ou chegas 10 minutos antes que fecha o posto de atendimento, e o funcionário não tem a mínima vontade de te ajudar. “Volta amanhã,” é a resposta. Como se amanhã não trabalhasses, como se amanhã não tivesses mais que fazer, como se pudesses perder outro dia a tentar ir de Viana para Luanda antes que o funcionário decida sair para o almoço uma hora antes do que devia. Tudo que pode ser tornado fácil, é tornado mais difícil, em quase todas as áreas da sociedade, desde a governação ao comercio geral. É como se todo mundo trabalha simultaneamente contra si. Faz-me muita confusão na cabeça.

7. A “aposta” no turismo

Precisamos urgentemente de diversificar a nossa economia. O petróleo não durará para sempre, e não podemos depender dos seus preços flutuantes. O governo tem estado a tentar fazer isso mesmo, ao apostar mais na agricultura e no turismo, entre outros sectores. Mas será a aposta no turismo séria? E se assim for, porquê os preços absurdos das passagens para Luanda? Por que não acabar com o parentesco a TAAG e abrir as nossas rotas aéreas ao mercado livre? E os preços dos hotéis? E mais importante ainda, porquê as dificuldades na concessão de vistos? Faz-me confusão na cabeça esta aposta no turismo quando é difícil para o meu amigo estrangeiro obter um visto angolano, comprar uma passagem aérea milionária, pagar centenas de dólares por noite num hotel de qualidade duvidosa, e gastar rios de dinheiro após o desembarque. Quando poderia ir à Moçambique por muito, mas muito menos dinheiro e muito menos transtornos. Se quisermos ser competitivos no mercado de turismo, temos muito que mudar.

Podemos ser um grande país, uma verdadeira potência africana, mas antes de tal teremos de mudar a nossa mentalidade. É urgente.

Por: Vozes da juventude angolana na diáspora

6 comentários:

  1. José, enquanto eu lia o teu texto, percebi que praticamente tudo o que descreves é idêntico ao Brasil, mudando-se apenas as coisas particulares, como os locais, a moeda e algumas denominações técnicas. Aqui, há poucos anos, em tive dificuldade para obter conexão de internet discada! Banda larga sem fio, surgiu há pouco tempo!
    Mas, o detalhe é que, como você disse, Angola tem apenas 40 anos como nação independente e o Brasil, mais de 150 anos!
    Angola é um garotinho, ainda começando a perceber o mundo, e o Brasil é um jovem que age com a irresponsabilidade de uma criança!
    Talvez se Angola tivesse 150 anos, seria mais adulta que o meu país!
    Abraços!

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  2. Se lhe serve de consolo o nosso imenso país sofre ainda dos mesmos males, mais em alguns lugares do que em outros, mas sofre.

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  3. Concordo plenamente com o Leonel.

    No nosso país, não é diferente, portanto acho que vc sofre duas vezes, por ser apaixonado pelos dois países. Ou estou errada?

    Beijos

    Iram

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  4. O que em todos os países, do mundo, acontece, seja melhor ou pior. Será sempre das responsabilidades dos homens, que os sabem ou não governar? No caso de Angola, país rico de recursos naturais, tinha por obrigação de tratar melhor os seus filhos. Talvez a culpa seja do actual regime político. Cujos governantes foram eleitos vitalícios, e enquanto não foram substituidos, continurá em fraco desenvolvimento?

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  5. Meu caro, vou passar a seguir o seu blogue pois interessa-me seguir a realidade angolana que aqui documenta. Estou a escrever um livro on-line (blogue. "Caminhos do Meu Navegar") sobre a minha passagem pela guerra colonial e utilizei um dos seu posts (kissonde)...

    Abraço

    Rogério Pereira

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  6. Se você não tivesse colocado nomes de lugares, moedas e outras particularidades, eu diria que estava falando do Brasil. José, eu acho que desenvolvimento econômico não é necessariamente sinônimo de desenvolvimento humano. Só mesmo uma educação voltada para a formação integral do ser humano pode alterar o quadro dos países que vêm sua economia andar a passos de lebre, enquanto as mentes caminham a passos de cágado. Muito esclarecedor, no entanto o texto. Meu abraço. Paz e bem.

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