Estes são os Blogues dos que amam Angola

Estes são os Blogues dos que amam Angola
Carreguem com o rato nesta imágem

Musica

quinta-feira, 18 de março de 2010

SORRISO DE CRIANÇA


A Raça Humana

Não tem cor,

Tanto sorri O Branco

Como o negro sente dor.


II


Não me senti nada diferente

Por entre aquela gente,

Onde também salta Criança

Sorri e também se sente.


III


Criança daquele Mundo

Vivem sempre a sorrir,

São filhos de mulheres humildes

Que também SOFREM ao parir.


IV


Pegam num pedaço de pau

Com ele fazem um brinquedo,

Brincam na poeira e no capim

E não há nada que lhes meta medo.


V


Com eles eu cresci

Brinquei e me fiz homem,

Hoje distante, eu me encontro

Em meu coração elas dormem.

Raça Humana não tem cor

Este meu artigo é dedicado a um saudoso povo de raça negra, de Angola, com quem vivi e compartilhei muitos dos seus segredos e das suas coisas nas selvas e savanas.
Sentava-me dentro das suas casas, comia o "funge" (alimento muito gostoso feito de farinha de milho e/ou de mandioca), à mão molhando-o no delicioso conduto feito de rama de bata-doce ou da mandioca (kisaca ou calulu) com óleo de palma e, algumas vezes, misturado carne de gazela, javali ou peixe, todos eles secos ao sol.

Nesse mundo não havia fantasias, nem stress, nem iguísmo, nem ódio, nem ganância e nem se falava ou penssava na cólera ou palodismo (malária) que hoje fáz temer tanta gente.

Era o mundo perfeito... "o mundo real" com a sua própria cultura, que o mundo não tem ou não deveria ter o direito de a querer substituir.

Em Angola não conheci o chamado racismo. Nas escolas, hospitais, bares, empresas laborais, não havia discriminação. Os que frequentavam as escolas era brancos, negros, mulatos, mestiços e todos vestiam o mesmo uniforme. Na educação escolar, ou no socorro, na medicina, tanto poderia ser branco, mulato ou negro. Nas empresas havia muitos encarregados ou chéfes que eram negros. E nos bares, nas farras e nas praias conviviam todos com grande cumplicidade e sem preconceitos. Inclusive, existia já muitos casamentos entre as duas cores. Nos quartos e enfermarias dos hospitais estavam os doentes de ambas as cores deitados lado a lado. E quem visitava os seus familiares ou amigos, nos hospitais, não tinha de pagar nada para poder entrar, o que, segundo me contaram, aqui na metrópole, como lhe chamavamos, pagavam.

Não posso também deixar de mencionar que devo a vida a um negro que não conheci mas tenho pena de não o ter conhecido. Certo dia, quando eu tinha 18 anos, inesperadamente senti os meus pulmões a encharcarem-se de um liquido. Eu, já com falta de ar e a sofocar, tossi e à medida que tossia saía, constantemente, sangue em grande quantidade, até que desmaiei e fui transportado para o hospital da cidade próxima (Gabela) que distava cinquenta quilometros do local onde vivia.

Por coincidência ou ironia do destino, quando dei entrada no hospital, o médico que fazia ali trabalho era o mesmo da tropa. Como naquele tempo não havia sangue empacotado para transfusão, o médico tratou logo de ligar para o quartel e ver se havia algum militar com o sague compatível com o meu. Por acaso, e talvez por força da natureza, nesse dia tinha ficado de castigo no quartel um militar de raça negra. Esse militar tinha o mesmo tipo de sangue que eu. Nesse dia tiraram-lhe duas seringas de sangue e 2 vezes por semana lá voltava a oferecer-me a vida. Assim fui salvo. Depois de todo este sofrimento e ao cabo de algum tempo, acabei po melhorar, saír do hospital e voltar para junto do meu clã.

Retomei a minha vida no Kimbo (aldeia), com os meus amigos de raça negra, brincava, crescia e aprendia todos os segredos da selva, savana e a falar a sua lingua (Kimbundo). Era também com eles que ouvíamos as estações rádio que transmitiam muita música de cantores Angolanos e Cabo-Verdianos.

Muita gente dizia, e o Jonas Savimbi també disse nos seus comíssios que: "quem beber água do Bengo (rio angolano), não vai coseguir esquecer e vai sempre sentir saudades de Angola". Mas eu não fiquei apenas apegado a Angola somente pela água do Bengo, tambem foi pelo sangue que me fez retornar à vida.

De adolescente passei a homem, sempre deficiente motor, por isso era levado por eles, os meus amigos, pela selva e savana junto ao rio Nhia. Havia, em abundancia, frutos, legumes e carne. A carne, tanto poderia ser a que criavam como a que caçavam. Sentia-me um homem feliz, como todos os outros éramos livres... éramos a savana e a selva, e, a savana e a selva não tinham sentido sem nós. Cresci, e hoje distante ainda me sinto branco por fora mas negro por dentro.

O MEU CORAÇÃO FICOU LÁ


Apesar de ser o país mais rico de África, Angola é e vai continuar a ser o país com maior índice de extrema pobreza



Foi dificil, muito dificil! Sofri como jamais poderia imaginar! Depois do terror, das rajadas e dos morteiros 81, o sangue e os corpos amontoados de gente e animais, alguns, ainda fumegando, queimados pelas chamas que fizeram desaparecer milhares de habitações das aldeias (Kimbos) por onde fui obrigado a passar quando, por entre a selva e savana, fugia á morte.

Foi a 10 e 11 de Junho de 1975 em Angola na fuga do Amboim no Cuanza-Sul, da Cidade da Gabela para o planalto central "Huambo", na altura designada pela cidade de Nova Lisboa, onde ficámos durante 3 meses, enquanto esperávamos pelo voo nº 191 da ponte aérea para refugiados de guerra. Durante esse tempo, no centro da cidede, não tinhamos a noção do que se estava a passar nos arredores, apesar de a todo o momento se ouvir rajadas de metralhadoras e bazucas que assobiavam e logo de seguida arrebentavam fazendo estremecer toda a cidade.

Aquele povo, pobre e humilde, mas rico de fé e esperança, esperança de liberdade e igualdede, povo do Huambo e Bailundo, eram mortos pelos seus irmãos do norte apoiados pelo armamento bélico e militares cubanos. A guerra civil em Angola passou a fazer parte dos media. Os conflitos na região do Huambo eram de revolta em virtude da centralização à volta desta cidade das forças politicas armados de ambas as facções em luta. O êxedo de civis que fugiam da zona em busca de sobrevivência, alguns partiam de avião, outros, sem condições infrahumanas, buscavam a sobrevivência para os lados de Benguela. Os relatos, que me chegavam poucos anos depois, eram de catástrofe dadas as condições da fuga, da marcha de cerca de 400 km até Benguela e finalmente até ao Lobito. Ali se formou um campo de concentração com cerca de 20.000 pessoas. Os relatos de sobrevivência eram impressionantes, nomeadamente os relatos da travessia do rio Catumbela, rio este infestado de crocodilos e que eu conheci. Barrada a única ponte, pelos militares, a travessia era feita por cordas passadas de uma a outra margem. Histórias de mães e filhos que terão perecido nesta travessia eram de horror. Ninguém sabe quantificar quantas as vítimas do rio mesmo sendo sobreviventes da caminhada. A informação que me chegavam, a esses campos de concentração, novas vítimas deste êxedo ostentando as marcas da tragédia. Mulheres e homens que pareciam farrapos humanos. Crianças gravemente desnutridas. Com 10 anos pesando cerca de 12 kg. Segundo o meu amigo Domingos Januário com quem mantinha contacto nos anos 80 e que lutava do lado da Unita e que chegou a fazer escolta a esta gente até próximo do campo de concentração, só visto realmente, contado nem dá para acreditar, segundo ele.

Também, segundo um amigo meu do concelho de Soure, que por volta do ano 2001 foi para aquela terra fazer o que fazia cá, cultivo de arroz, a corrupção está sempre presente onde quer que estejam disponíveis bens alimentares para apoio a estas tragédias. Esse amigo já saiu de Angola em 2007 e foi implantar-se, no mesmo ramo, em Moçambique. Segundo ele, em Angola não há condições para se trabalhar com a certeza de que se vai colher. Depois de 7 anos de trabalho, ao semear para colher, quando estava a iniciar a recuperação do envestimento, foi surpreendido por dois homens que se apresentaram como sendo do governo e disseram-lhe: Tem 24 sobre 20. Ele perguntou o que é que queriam dizer com aquilo. Responderam: Tem 24 horas para abandonar o país e tem 20 klg de roupa para levar.

É assim, porque actualmente quem não for corrupto e colaborar com o governo não se safa, segundo ele. Trabalhar dentro da honéstidade está fora de questão. Em Moçambique já assim não é! Moçambique acolheu todos os que tiveram de abandonar o Zimbabwe por altura em que Roberto Mugabe excitou os trabalhadores e disponiblizou forças governamentais para correrem com todos os fazendeiros brancos e, todos que ali chegam (a Moçambique) com vontade de fazer progredir o país são bem recebidos e apoiados pelo governo.

Angola está condenada e apesar de ser o país mais rico de África, em termos de matérias primas, é e vai continuar a ser cada vez mais o país com maior índice de extrema pobreza.

Angola, terra que resistiu a todas as convulções com o preço elevado da parte humana continua a ser a terra linda que sempre foi e que me vai na alma. Nos ultimos dias da minha vida, o melhor que me poderia acontecer, seria acabá-los lá, em Angola. Naquela terra onde mesmo com fome sorriem e são afáveis. Naquela terra onde o cheiro, o calor, os sons e as paisagens invadem a minha alma. Foi da cidade de Nova Lisboa, actual Huambo, que parti. Enquanto o avião se deslocava da pista, senti uma dor tão grande porque o meu corpo era arrancado daquele solo mas o meu coração ficava lá.

A minha história


O dia acabara de nascer
Num lindo dia de Novembro,
Toda a aldeia estava agitada
Por algo que não me lembro.

II

Mas se é como contam
Dizem que foi uma alegria,
Pois acabara de nascer
Mais um filho à senhora Maria.

III

Zézito assim lhe chamam
Um menino de encantar,
Todos lhe punham o olho
Até deixar de caminhar.

IV

Andou aos nove meses
Aos vinte e dois paralizou,
Foi uma grande tormenta
Que minha mãe comigo passou.

V

Coitada todos os dias
Tinha que me transportar,
Assim me levava ao colo
Para onde ia trabalhar.

VI

Meu pai para nos governar
Para Angola emigrou,
Sabe-se lá o que esse homem
Em quatro anos por lá passou.

VII

No caminho por onde passo
Alguns espinhos tenho encontrado,
Mas enfrento todos os dramas
Não aceito ser derrotado.

VIII

Sou de personalidade forte
Não fora eu Sagitário,
Com a força que Deus me deu
Vou enfrentando o meu diário.

IX

Ao longo da minha vida
Muita amizade semeei,
Esta seara vou cultivando
Até ao dia que partirei.

X

Sinto-me feliz neste momento
Ao recordar o meu passado,
Aqueles que me forem fiéis
Quero-os sempre do meu lado.

quarta-feira, 17 de março de 2010

PARTE DO MEU TESTEMUNHO DO QUE PRESENCIEI EM ANGOLA


Antes do 25 de Abril de 1974

Se o combate libertador custou muito mais vidas do que deveria custar; se, na UNITA, MPLA e FNLA houve muitos mais mutilados, muitos mais órfãos, muitos mais desamparados do que deveria haver, isso nem sempre foi por causa da confrontação directa entre os patriotas e o colonialismo.
Infelizmente, a verdade é esta, também a luta fratricida entre Movimentos de Libertação – a luta fratricida, causou muito mais vítimas no próprio meio dos que estavam com a estes partidos. A divisão entre os três Movimentos de Libertação causou vítimas. E retardou a marcha para a independência. Porque, assinado a suspensão das hostilidades com o exército português, o nacionalismo encontrou-se confinado a áreas bastantes restritas. E por isso mesmo que, encontram dificuldades na mobilização de todo um povo, desejoso de se libertar, mas solicitado por ideologias, muitas vezes mais do que estranhamos, porque contrárias á verdadeira defesa dos seus interesses.
Se o nacionalismo angolano não tivesse embarcado tristemente na guerra fratricida, teriam, certamente, coberto todo o país. Angola tinha condições humanas e geográficas para fazer uma guerrilha em nível muito superior àquela que teve lugar noutras antigas colónias portuguesas, como por exemplo: -na Guiné em que parte do terreno era pantanoso.
Mas a divisão retardou esse passo, retardou essa marcha.
Portanto, engajados na descolonização do país, através da luta politica, temos a obrigação de nos lembrarmos dos nossos amigos mortos na guerra fratricida. Todos os dirigentes dos Movimentos têm obrigação de recordar os sacrifícios inúteis dos homens e nossos amigos, que se deram totalmente para que estes partidos sobrevivessem em busca da descolonização. Muitas vezes foram os da UNITA a darem ordens para o combate fratricida.
Ninguém pode negar, se for honesto, que a divisão foi motivo de vergonha no plano africano, foi motivo de humilhação no plano interno, para os que tinham confiança nos Movimentos de Libertação.
E foi, principalmente, por causa de motivos de hegemonismo sobre o nacionalismo angolano, que tiveram de suportar um combate longo… Essa intolerância existia porque todos gostariam de ser os únicos, os incontestados, possuidores do segredo máximo da libertação deste país e da verdade única, que se impusesse, não pela profundidade da sua própria análise e eficácia na condução da luta de libertação, mas pela força e pela violência.

Foi assim, que se perderam muitos dos nossos melhores amigos angolanos, negros, mestiços e brancos, combatentes nesta luta fratricida.
Depois, existiu uma apreensão justificada porque os movimentos de Libertação guerreavam-se, insultavam-se, faziam tiros. De Luanda a São Nicolau, do Lobito a Nova Lisboa, ainda os filhos de Angola morriam, em 1975, atingidos pelas balas dos outros nacionalistas. É um crime, é um crime. Não há nome possível capaz de definir claramente o encorajamento á guerra fratricida. E são criminosos aqueles que quiseram encorajar os filhos de Angola a morrerem outra vez atingidos pelas balas dos seus próprios irmãos. Não tem mensagem, nem justificação para um combate deste género.
Muitos diziam que a UNITA éra cobarde porque a sua moderação representa ausência de força. Não é verdade. Na UNITA existia a noção exacta da limitação da força. O maior, ou um dos maiores pensadores da nossa época e um dos maiores estrategas da guerra de guerrilhas, disse que, se o material bélico conta, o elemento decisivo é o homem. Se o aparato militar conta, se os canhões contam, se as HKs contam, ainda conta mais o Homem. É o elemento decisivo. Aquele que esteve a pensar na imposição da sua força através das armas, esteve a criar uma grande ilusão. O povo de Angola não esteve com ele. O povo de Angola já não queria guerra. O povo de Angola queria paz. O povo de Angola queria trabalho. O povo de Angola queria ordem.
Ninguém terá força suficiente para cair em cima do povo de Angola. O colonialismo português não foi capaz, através da alienação, através da dominação física do povo, de conseguir ficar nesta terra. Ninguém acredite na imposição da força em Angola. A não ser que quisesse fazer desta terra um cemitério.
Existem elementos europeus da nossa sociedade – que uns preferem chamar de etnia branca – que tiveram de partir. Nesse momento, partiram muitos e muitos indivíduos para Portugal e outros países para não padecerem no campo de batalha. Foi triste. Alguns tomaram uma posição oportunista de partirem para uma outra pátria e deixar que os outros construam aquilo que nós sempre quisemos chamar a nossa pátria, esta posição dúbia é uma posição que não pode merecer confiança por parte dos adeptos e militantes da UNITA e eu sou um deles. Aqueles que queriam Angola como pátria, nesse momento deviam ficar por lá para, em conjunto, resolver o problema de Angola. Aqueles que procuraram o conforto e a segurança noutras latitudes para depois, após terem resolvido os problemas, regressarem a Angola como angolanos, esses foram cobardes e são oportunistas. Eu, também fugi levado pelos meus pais. Mas não tinha outra escolha devido á minha deficiência não tinha meios como ficar e ajudar na reconstrução do país que aprendi a amar.
Felizmente, a posição criticada da UNITA – porque a UNITA estava ao serviço dos colonos… –, felizmente, todos os movimentos reiteraram esta posição. Ainda bem!
A UNITA, como sempre, continuava a receber cartas anónimas daqueles que os consideravam como agentes dos colonos. Há razões para acreditar que a verdadeira maioria honesta do povo Angolano estava de acordo com a UNITA.
(Houve aqueles que, não tendo conhecido o pai de Jonas Savimbi, que não tendo vivido com o seu pai nos seus últimos anos de calvário, disseram, á boca cheia, que a PIDE autorizava-o a ir da mata visitar o seu pai em Luanda. Malditos!
Mas também existem aqueles que viram seu pai na cadeia e, hoje, felizmente, tenho a consolação de saber, da parte dos mesmos algozes, que seu pai foi preso, simplesmente, porque teve a coragem de dizer á PIDE que, se o filho aparecesse em casa – porque eles também duvidavam, eles também procuraram saber se Savimbi ia ao Andulo mobilizar o povo –, porque seu pai teve a coragem de dizer: «Se o meu filho aparecer, não o posso prender e entregar á PIDE».
Isso foi o suficiente para ser preso. Essas palavras saíram da boca do presidente da Câmara do Bié. Portanto, se seu pai morreu porque afirmou á PIDE que, se o filho aparecesse em casa não o entregava, é porque seu pai era Patriota. E os que insultaram a memória de seu pai não são mais do que aqueles que, na hora da dificuldade, desertaram do nacionalismo e juntaram-se á PIDE onde fizeram a sua fortuna).
A justiça para verdadeiro democrata e angolano, consiste no seguinte: o primeiro toma consciência da sua opressão e luta para conseguir os seus direitos; o privilegiado reconhece que foi privilegiado e aceita abandonar a arrogância e coloca-se ao nível do mais oprimido e do mais humilde. O contrário, ou seja, o privilegiado passar a ser democrata, para continuar a viver em sofisma, é uma contra-revolução!
Gostaríamos que esses democratas fossem confrontados com a população duma sanzala, para vermos como essa população «defende» esses democratas… eu sei bem, vivi lá.
Afinal, se a UNITA esteve a defender os mais oprimidos, a justiça social, primeiro envidemos todos os esforços para que os mais oprimidos tenham uma situação condigna. Os que tinham posições privilegiadas – os senhores democratas – teriam de sacrificar parte dos seus privilégios em benefício da comunidade. E com o tempo teria de se acertarem as agulhas. Mas sempre tendo, por norte, o humanismo.
Nessa angolanização devia-se ter em consideração a eficacidade, a competência, nos trabalhos administrativos. Senão, Angola iria sofrer um recuo! Se colocarem indivíduos só por causa da filiação politica e partidária, sem terem em consideração a sua capacidade de produção, isso seria errado. A angolanização ou a africanização são aspectos justificados.
Se pode ser Angolano, se é angolano o preto, o branco e o mestiço – quem quiser ser de Angola – não há nenhum aspecto discriminatório nesta angolanização dos quadros. Mas haveremos de ter sempre em conta a competência e a aficacidade dos serviços. Só assim é que ganha alguma coisa com esta operação. Mas, enquanto fizerem uma operação de fachada e o nível de produção diminuir tremendamente, nem aqueles quadros com capacidade poderão transmitir esses conhecimentos aos outros, nem estes poderão dar a sua contribuição a Angola. Tudo tem a sua medida!
Só o fanatismo e a ganância é que não é aconselhável para o bom desenvolvimento de Angola.
Agora desenvolveram mais as prepotências daquelas que mandam!
Pois sim! Eu sei. Deveriam rectificar. Deveriam educar.
A reeducação deveria fazer-se a todos os níveis.
O 25 de Abril não pode, magicamente, resolver todas as injustiças!
Há situações mais urgentes que clamam por uma solução rápida e imediata. Há situações que devem evoluir.
A UNITA tentou por todos os meios dar o seu apoio incondicional ao Governo de Transição e todo o seu apoio ao Alto-Comissário de Portugal em Angola, general Silva Cardoso. Era considerado um homem equilibrado e imparcial. O Governo de Transição poderia contar com todo o esforço, por parte da UNITA, para que esse governo continuasse a trabalhar, mas não, acabou por falhar e desistir, entregando o poder para a mão do MPLA apoiado pelos Cubanos mergulhando assim num mar de sangue onde desde o 25 de Abril de 1974 até 2002 ficaram nos campos de batalhas milhões de mortos e milhares de mutilados e órfãos, mais mortos do que em todo o tempo de colonização.
Os religiosos tinham e sempre terão lugar nesta Angola de sempre! Porque a sua palavra, na hora de dúvida e de incerteza, leva até aos incrédulos a Fé num futuro melhor e mais justo para todos. O povo angolano sempre foi crente nos Deuses que as religiões apregoam.
“Em serto comício no Andulo Savimbi disse: -Os técnicos que quisessem cooperar e aceitar a nova politica, que queira admitir que a arrogância e a resultante das prerrogativas da burguesia nacional devem acabar, e que desejem trabalhar para o povo, teriam lugar neste país.
Angola, felizmente, é uma terra portentosa. Aquele que não quiser viver em Angola, mas que bebeu água de Angola, para onde for, será infeliz.
Lembrar-se-á sempre desta Pátria bela e rica. Mas quem quiser ficar, esta Pátria abrirá os braços para os proteger”.Assim dizia Savimbi nos comícios que ouvi na rádio. E eu sou um dos que bebeu água de Angola, “água do Bengo” e por isso nunca mais me senti feliz. Estou longe mas o meu coração está sempre lá. Amo Angola...

INTIMIDADOS PELAS ARMAS (aquilo que meus olhos viram)


(Foto retirada do google)
Como já devem ter percebido, sou um apaixonado pelo continente africano, principalmente pelo sítio onde vivi durante vários anos, entre matas e savanas em Angola. Facilmente familiarizei-me com os negros.
Muitas histórias aconteciam, naquelas matas e savanas que se encontravam a 50 km. de distancia da Cidade. Os negros, meus colegas e amigos, tudo comigo compartilhavam.
O elo que nos unia era tão forte que levou, a nós jovens, com idades compreendidas entre os 14 e os 20 anos, cantar, sem medo, a canção do nosso líder político «Comandante “Che Guevara”». Para nós, ele era o maior, naquela altura, pois hoje não penso assim! Originário da Argentina, formado em medicina, integrou-se no grupo de revolucionários exilados que desembarcou em Cuba, em 1956. Fez depois parte do governo impondo a sua ideologia comunista. Promoveu a guerrilha na Bolívia, onde foi executado em 1967, tinha eu 15 anos. Ficamos tristes, muito tristes. Por lá, em Angola, também tínhamos a PIDE-DGS mas não nos intimidávamos. Éramos livres. Mas, existia de facto uma coisa que nos revoltava! Um dia, já em 1974, o Dr. Jonas Savimbi, nosso líder e presidente do nosso partido, disse, num comício no Huambo: -“Irmão, o nosso combate nunca foi contra a etnia branca, mas sim contra o governo colonial e o imperialismo! Combatemos a tropa portuguesa porque defendem a colonização de Angola por Portugal! O branco civil tem vivido de mãos dadas connosco! O grande problema é a tropa que vem de Portugal!..”. Sem dúvida, a tropa que ia de Portugal, na sua maioria, pelo menos na zona onde vivi, Amboim - Cuanza Sul, eram homens com má formação, desumanos e com falta de escrúpulos! Cheguei a ver, muita vez, quando eles apareciam lá no mato, junto das Senzalas (aldeias) dos negros, onde eu também vivia, armados com G3 e HK’s, o cinturão cheio de balas e algumas granadas penduradas, saltavam do JEEP e os negros da Senzala (aldeia), com o medo assistiam ao roubo, de seus pertences, que esses militares lhes faziam. Roubavam-lhes cabritos, leitões, galinhas, cachos de banas e ananases. Enchiam o JEEP e lá seguiam para o quartel, que se situava na Cidade (Gabela), para as suas patuscadas. Nós, temíamo-los e no fim de se afastarem ficávamos revoltados. Aquelas cenas ficaram marcadas na minha memória de tal forma que cheguei a sentir raiva de mim próprio por ser de raça branca. Ainda há pouco tempo tive este desabafo com uns amigos meus, de Soure, e que cumpriram lá tropa, e confirmaram esta realidade.
O Dr. Savimbi disse, ainda naquele comício: -“Irmãos, a exploração feita pelo homem ao homem não é um problema dos brancos para com os negros! Não… estudei em Portugal e constatei que lá existe muito mais exploração de patrões para com o trabalhador!”.
Quando cheguei a Portugal ouvi muita vez dizer que nós roubávamos os pretos! Eu que sou branco, mas como me sinto na pele dos negros, tenho que dizer que é mentira, é falso! Homem branco ou preto, civis, ninguém roubava nada a ninguém! A tropa portuguesa, ida de Portugal, sim, eles é que roubavam os negros e até, pelo meio do medo que faziam sentir, e com a intimidação, chegavam a fazer sexo com as filhas ou irmãs dos meus amigos negros, logo ali dentro de uma cabana! Lamento...


Era revoltante e esta é a mais pura realidade do que se passava em Angola. A guerra durou mais tempo porque os capitães e comandantes davam apoio logístico aos guerrilheiros apoiados por Cuba e União Soviética. Pois interessava-lhes a continuidade daquela guerra visto que usufruíam de altas regalias em relação aos seus camaradas em Portugal. Sou uma pura testemunha de toda a realidade que se passava em Angola desde Janeiro de 1962 até Setembro de 1975. Os ladrões, tal como em Portugal diziam de quem lá vivia, eram a tropa que ia de Portugal. Quando, alguns chegaram a dizer há pouco tempo num canal televisivo que: “vieram de lá com perturbações mentais”! Eu acho que, quando para lá foram, estes soldados, a maioria deles já sofriam de perturbações mentais e, como tal, o governo português mandava-os para lá!... Lamento!

COR DE PELE, PRECONCEITO E RACISMO



Como é do conhecimento geral, existem varias cores de pele no ser humano. Falasse muito de racismo e que este, parte dele, devêm da diferença da cor de pele. A mim custa-me muito acreditar neste factor: “Porque eu sou branco e tu és negro”, ou, “eu sou negro e tu és branco”. Vivi parte da minha infância e toda a adolescência até me tornar homem junto de gente de cor negra e para ser sincero até gosto daquela cor, em nada me afectaria se a minha pele em vez de branca fosse negra. Mas eu tenho a resposta certa para o facto de os de cor “negra” sentirem complexo e gostariam mais de terem nascido com a pele de cor “branca”.
Faz-me muita confusão o facto de alguém não se sentir bem com a cor que tem.

Como vivi cerca de 14 anos no meio de negros, como já falei noutros artigos, e como sabia que eles sentiam e diziam que nós, os de raça branca éramos racistas, um dia perguntei a um deles se gostava de sere “negro” e a resposta dele foi: -Não, eu gostar mais de ser branco.

Eu, como não consigo desclassificar aquela cor, e como já referi, até gosto dela, respondi-lhe: -Então o racista és tu, porque não te contentas com a cor que tens.

E ele respondeu-me que: -Ah, ser s’branco mesmo é que bom, porque os branco é que manda nos preto.

Aí eu disse-lhe: -Estás errado, existem muitos brancos a mandarem em brancos e fazerem deles escravos. Não foram só negros que fora escravizados, também existiram e ainda existem, por todo o mundo, brancos a serem explorados por outros brancos. Tira essa ideia da cabeça porque a tua cor é bonita e se me dessem a escolher a cor da minha pele pedia a tua cor.

Muita coisa, eu, falava com aqueles negros a respeito do racismo. O facto da cor da pele não poderia servir para se sentirem diferentes. Então disse-lhes que: -O homem branco era ganancioso e á séculos atrás, quando entrou na África, e descobriu as riquezas que ali existiam, tentaram sulca-las á força e através da força esforçavam os habitantes daquele continente a trabalharem para eles de forma gratuita e até houve, entre o homem branco, quem capturasse negros para os venderem a outros para trabalharem em trabalho esforçados e é por este motivo que centenas de anos depois ainda eles sintam a diferença da superioridade.

Mas não, eles teriam que esquecer esse lado porque esse lado não pode ser tido em conta para a existência de racismo com a convicção de que é a diferença pela cor da pele. As atitudes dos homens é que contam e se alguém teria de se sentir envergonhado com a cor da pele teriam de serem os brancos pelas atitudes que tiveram. E disse-lhes: -Eu mesmo não me importaria de ter a tua cor! O importante é sermos amigos e vocês são os meus melhores amigos.
Mas eu falava tudo aquilo com sinceridade e não me sentia bem ser descriminado no meio do ambiente onde viviam. Gostava de me sentir integrado na comunidade deles, por isso a diferença de cor, para mim, não tinha, não tem e nunca terá sentido.

O que mais de estupido aconteceu, e que toda a gente tem conhecimento, foi a questão de Machael Jackson. Era um negro tão bonito mas preconceituoso, não gostava da cor que tinha, tornou-se numa "mumia" até que se matou.

DDT, QUININO E MALÁRIA


Vivi em Angola por toda a década de 60 e metade da década 70, nas savanas e florestas. A Malária, conhecida na época por Paludismo não matava. Durante os quinze anos não se ouvia falar em doentes ou mortes feitas por este vírus transportado por um mosquito. Não era que o vírus não existisse, mas existia prevenção. Era distribuído por toda a gente comprimidos “Quinino” que eram tomados um por semana. Todos os lugares onde se pudessem alojar os mosquitos, baratas, aranhas e outros insectos, como por exemplo, em capoeiras, corrais e em volta das habitações, eram desinfectados com um pó conhecido por DDT. Até mesmo, este pó era esfregado no couro cabeludo dos animais para os livrar dos parasitas e até nas cabeças de crianças quando apareciam com piolhos. O alastramento da Malária deve-se á retirada dos europeus das Ex-Colónias, entrando assim, esses países, no abandono no campo de prevenção e saúde. Por outro lado, também, tem a ver com a proibição, a nível mundial, do fabrico e utilização do benéfico pó branco “DDT”. Na África do Sul, na zona do Kwazululu- Natal, em 1996 o DDT é substituído por outro insecticida piretroide e o resultado é a Malária dispara de 20.000 afectados para 65.000. Só volta a descer, para os 8.000 em 2005, porque em 2000 o governo e as autoridades sanitárias retrocedem e voltam ao DDT. O DDT era, e é, um insecticida nosso amigo e toda a gente o tinha em casa. Durante os 15 anos que vivi no deserto Angolano, nunca adoeci e todos que por lá viviam usufruíam de boa saúde. Para acabar com essa terrível epidemia, que é a Malária, só será possível quando as entidades sanitárias de todo o mundo resolverem invadirem a África com a finalidade de distribuir o DDT e os comprimidos “Quinino”, tal como se fazia nas décadas de 50, 60 e 70 quando a prevenção estava a cargo dos governos colonizadores. Em 2004, um irmão de um cunhado meu regressou á terra que o viu nascer, Huambo, antiga Nova Lisboa, Angola. Em Novembro de 2007 faleceu contaminado pela Malária. Ele nasceu, cresceu e casou-se lá, veio para Portugal em 1975, tal como tantos, fugindo á guerra. Dizia ele: - Tenho que morrer onde nasci! Mal ele sabia que um mosquito o esperava para lhe sugar sangue e deixar, como tampão no orifício, o terrível vírus Malária.




O que é a malária e como se propaga
A malária ou paludismo é uma doença infecciosa aguda ou crónica causada por protozoários parasitas do género Plasmodium, transmitidos pela picada do mosquito Anopheles.
A malária mata 3 milhões de pessoas por ano, uma taxa só comparável à da SIDA, e afecta mais de 500 milhões de pessoas todos os anos. É a principal parasitose tropical e uma das mais frequentes causas de morte em crianças nesses países: (mata um milhão de crianças com menos de 5 anos a cada ano). Segundo a OMS, a malária mata uma criança africana a cada 30 segundos, e muitas crianças que sobrevivem a casos severos sofrem danos cerebrais graves e têm dificuldades de aprendizagem.
A designação paludismo surgiu no século XIX, formada a partir da forma latinizada de paul, palude, com o sufixo -ismo. Malária é termo de origem italiana que se internacionalizou e que surge em obras em português na mesma altura. Termo médico tradicional era sezonismo, de sezão, este atestado desde o século XIII. Existem muitas outras designações.
Transmissão
Fêmea de Anopheles alimentando-se de sangue humano A malária é transmitida pela picada das fêmeas de mosquitos do género Anopheles. A transmissão geralmente ocorre em regiões rurais e semi-rurais, mas pode ocorrer em áreas urbanas, principalmente em periferias. Em cidades situadas em locais cuja altitude seja superior a 1500 metros, no entanto, o risco de aquisição de malária é pequeno. Os mosquitos têm maior actividade durante o período da noite, do crepúsculo ao amanhecer. Contaminam-se ao picar os portadores da doença, tornando-se o principal vector de transmissão desta para outras pessoas. O risco maior de aquisição de malária é no interior das habitações, embora a transmissão também possa ocorrer ao ar livre.
O mosquito da malária só sobrevive em áreas que apresentem médias das temperaturas mínimas superiores a 15 °C, e só atinge número suficiente de indivíduos para a transmissão da doença em regiões onde as temperaturas médias sejam cerca de 20-30 °C, e humidade alta. Só os mosquitos fêmeas picam o homem e alimentam-se de sangue. Os machos vivem de seivas de plantas. As larvas se desenvolvem em águas paradas, e a prevalência máxima ocorre durante as estações com chuva abundante.
A infecção humana começa quando um mosquito Anopheles fêmea inocula esporozoítos dos plasmódios a partir da sua glândula salivar durante a hematofagia. Essas formas são transportadas pela corrente sanguínea até o fígado, onde invadem as células e começam o período de reprodução assexuada. Mediante esse processo de amplificação. Um único esporozoíto produz vários merozoítos-filhos. Nas infecções por P. vivax, uma parcela das formas intra-hepáticas não se divide de imediato, permanecendo latente, na forma de hipnozoítos, por um período variável de 3 semanas a 1 ano ou mais antes que a reprodução comece, e são a causa das recidivas das infecções.
Mais tarde a célula se rompe, liberando merozoítos móveis na corrente sanguínea e rapidamente os merozoítos invadem os eritrócitos e se transformam em trofozoítos. A fixação é mediada através de um receptor específico da superfície do eritrócito. Ao fim do cilco evolutivo intra-eritrocitário, o parasito consumiu quase toda a hemoglobina e cresceu a ponto de ocupar a maior parte do eritrócito. Agora denomina-se esquizonte. Ocorrem múltiplas divisões celulares, e o eritrócito se rompe para liberar 6 a 30 merozoítos-filhos, cada um potencialmente capaz de invadir um novo eritrócito e repetir o ciclo. A doença em seres-humanos é causada pelos efeitos directos da invasão e destruição eritrocitárias pelo parasito assexuado e pela reacção do hospedeiro. Depois de uma série de ciclos assexuados ou imediatamente após a liberação do fígado alguns dos parasitas desenvolvem-se em formas sexuadas de vida longa, morfologicamente distintas, responsáveis por transmitir a malária.
Após serem ingeridos durante a picada de um mosquito Anopheles fêmea para alimentar-se de sangue, os gametócitos masculinos e femininos formam um zigoto no intestino médio do insecto. Esse zigoto amadurece até um oocineto, que penetra e encesta-se na parede intestinal do mosquito. O oocisto resultante multiplica-se por divisão assexuada, até romper-se e liberar grande quantidade de esporozoítos móveis, que em seguida migram pela hemolinfa até a glândula salivar do mosquito, onde aguardam a inoculação em outro ser humano na segunda picada.

Desabafo de um solitário


É no papel e na caneta
A única forma que tenho,
Para desabafar o coração
Das coisas que nele mantenho.

Não lhes guardo segredos
Tudo lhes confidencio,
No que no meu peito existe
No papel eu o esvazio.

O que vai dentro de mim
Faz doer meu coração!
As horas e os dias passam
Cada vez com mais solidão.

Mas o eco dos meus sentimentos
Não o encontro em alguém,
Vou vivendo a triste sina
Como um prisioneiro e refém.

Ás vezes entro em desespero
E de tudo faço para me acalmar,
Só me sinto mais feliz
Quando me sento á beira-mar.

Meu olhar se esvai no horizonte
O vento sopra tentando limpar,
As lágrimas da minha face
Que pouco a pouco sinto a secar.

Ali na praia sentado
Caneta papel na minha mão,
Ouço uma voz que me diz:
-É teu o meu coração!

Adeus papel e caneta
Valeu a pena, já encontrei,
O amor da minha vida
Que por tanto lado procurei.

A Fuga


No dia 5 de Fevereiro de 1975 o meu pai e irmãs deslocaram-se até à cidade da Gabéla e só eu e a minha mãe nos encontrávamos na fazenda.
Por volta das 20 horas, ainda tínhamos a loja comercial aberta com alguns clientes. Entraram cinco homens envergando a farda de tropa com os dísticos do MPLA e, de arma em punho e os cinturões cheios de balas e algumas granadas penduradas, aproximaram-se do balcão e perguntaram à minha mãe se tínhamos armas. Ela respondeu que tínhamos uma caçadeira. Eles pediram-lhe que a fosse buscar e lha entregasse. Pedido ao qual ela acedeu.
Beberam um copo e perguntaram quanto era. A minha mãe respondeu que era oferta da casa. Deram-nos as “boas noites” e seguiram. Nós transpirávamos de medo.
Passados mais ou menos dois meses, voltaram a passar por lá e entregaram-nos a arma. Nunca soubemos o que os levou a terem aquela atitude. Na penúltima semana de Junho de 1975 os habitantes lá da Sanzala (Aldeia), aqueles que tinham patrões, não foram trabalhar e passaram uns dias fora da Sanzala, presumo que dentro da selva. Uns dias antes, naquela Sanzala apareciam Jipes com homens fardados e armados das 3 fracções combatentes (UNITA, MPLA e FNLA). Dali em diante, eu continuava a conviver com os meus amigos mas, notava que os pais deles nos olhavam com uma certa diferença. Os dias foram passando e no dia 20 de Julho de 1975, na cidade da Gabela os partidos entram em confrontos e a população organizou uma caravana, com cerca de 400 veículos, acompanhados por militares portugueses e da UNITA, que com veículos e aviação fizeram escolta até a cidade de Nova Lisboa (actualmente designada de Huambo).
Nós vivíamos no mato a cinquenta quilómetros da cidade.
No dia 19, pelas 23 horas, Jorge Loureiro Morais, que namorava com a minha irmã Manuela, acompanhado de um colega, encheram-se de coragem e atravessaram o deserto, por estradas de terra batida e foram resgatar-nos com uma carrinha de marca Peugeot, de cinco lugares. Metemos à pressa uma mala com algumas roupas no porta - bagagens e fugimos para uma fazenda da CAOP, que ficava a uns oito quilómetros. Ali se juntaram outros.
Os meus pais, ao aperceberem-se que o caso era mais grave ainda tentaram voltar a casa com o intuito de trazerem mais algumas coisas, inclusive a caçadeira e a minha colecção de discos de vinil, mas ao chegarem perto de casa depararam-se com um bando de pessoas que não os deixaram aproximar, e de dentro do grupo saiu um homem que era bastante nosso amigo e, que infelizmente, também tinha um filho deficiente. Dirigiu-se à minha mãe e segredou-lhe: -Minha senhora vá embora agora que eles estão dispostos a matar se avançarem.
Os meus pais não tiveram outra hipótese senão regressar.
No dia seguinte partimos, por estrada de terra batida em desertos de savanas, com poucos arbustos, onde o perigo de encontrar o inimigo atacante era iminente. Percorridos uns dez quilómetros, a estrada passava no meio de uma sanzala (aldeia de negros e onde viviam também alguns brancos, no Pombuige). Quando íamos a chegar vimos um grande grupo de homens, vestidos só com calções, na cabeça uma fita com as Siglas do MPLA, catanas, flechas e algumas espingardas. O chefe deles fez-nos parar, mas ao dirigir-se a nós reconheceu o meu cunhado Henrique, conheciam-se das caçadas. Cumprimentaram-se, com um aperto de mão e com um abraço. Dirigiu-se à multidão e disse-lhes para nos deixarem passar, que éramos conhecidos e amigos. Seguimos e passados uns setenta quilómetros, chegámos à estrada asfaltada que ligava Luanda a Nova Lisboa. Nesse lugar, chamado “Muquitixe”, no meio do deserto angolano, havia um restaurante e umas bombas de combustível onde os camionistas paravam normalmente. Ficava a uma distância de trezentos quilómetros da capital e a uns quinhentos de Nova Lisboa. Estacionámos ali os sete veículos e fomos perguntar aos donos se haveria hipótese de nos arranjarem algo para comer, uma vez que já passava das 23 horas.
Eles disseram que só nos poderiam arranjar bifes de vaca com batatas fritas. Acabámos de jantar, saímos e pensámos em pernoitar ali no parque, dentro dos automóveis. Passado meia hora, quando já quase todos pegavam no sono, fomos surpreendidos por um Jeep Land Rover que transportava 23 homens fardados e armados com armas de guerra. Saltaram do Jeep, dispararam umas rajadas de HK 45 e cercaram-nos os carros. Eu notei logo na farda e pelo crachá que estava na boina e na porta divisas, que eram militares da UNITA, saudei-os com um: -Boa noite irmão. Ele cumprimentou-me e perguntou-me se éramos irmãos.
Eu respondi-lhe que era irmão e, levantando o tapete do automóvel tirei o meu cartão de militante da UNITA. Ele virou-se para o resto dos companheiros e disse: -Tenham calma que estes são nossos apoiantes, este senhor é nosso militante.
Então, depois de conversarem connosco, aconselharam-nos a não pernoitar ali visto que nessa tarde tinha havido, ali, confrontos entre a UNITA e o MPLA. Nos arredores estavam muitos mortos e havia alguns escondidos com sede de matar. Também nos aconselharam a seguir para Nova Lisboa porque para o lado de Luanda poderíamos correr perigo. Ainda nesse lugar, enquanto conversávamos e trocávamos impressões com esses militares, que considerávamos nossos protectores, apareceu, vindo do escuro não se sabe de onde, um jovem, negro, que aparentava ter entre 25 e 30 anos, não me apercebi se estava embriagado ou se era algum dos que esteve envolvido nos tais confrontos que decorreram naquela zona. Dirigindo-se a um dos militares cumprimentou-o, estendeu-lhe a mão e disse:
-Boa noite camaradas – O militar, da UNITA, ao ouvir a palavra camarada, agarrou-lhe nos colarinhos, arrastou-o até junto do Jeep e de seguida espetou-lhe um pontapé nos testículos e disse: –Volta lá a dizer isso!
O Jovem repetiu, “camarada” e o militar levantou-o, encostou-o ao Jeep, espetou-lhe a baioneta na barriga e logo de seguida deu-lhe um tiro.
Era assim, os da UNITA não admitiam a palavra, “camarada”, pois ela era sinónimo de comunismo, União Soviética e Cuba de Fidél de Castro.
Voltámos para trás, uns sete quilómetros e fomos pedir aos donos de uma fazenda que nos arranjassem ali um sítio para dormir.
No dia seguinte partimos, e ao despedir-nos dos donos da fazenda, eles com as lágrimas nos olhos disseram-nos: - Hoje são vocês, amanhã seremos nós! - Abraçámo-nos e seguimos rumo à vila da Quibala para lá esperarmos pela caravana que vinha da Gabéla.
Ao chegarmos à Quibala, ficámos aterrorizados com o que encontramos. Logo à entrada, vimos as casas dos negros todas queimadas, algumas ainda a deitar fumo. Havia, cães, porcos e pessoas mortas junto ao que restava dessas casas. Entrámos na pequena vila. As bombas de gasolina tinham desaparecido. No chão havia um grande buraco provocado por morteiros 81, lojas e casas rebentadas por morteiros e balas. Já não havia nada a funcionar e a população desaparecera. Ainda tentámos comprar pão mas nada havia. A minha mãe, irmãs e outras senhoras que nos acompanhavam, tentaram ir atrás dum armazém, fazer as necessidades fisiológicas, mas fugiram para junto de nós apavoradas com o que tinham encontrado: centenas de mortos, de raça negra, ali estavam amontoadas uns por cima de outros, uns à civil, outros envergando fardas de militares dos três partidos.
Ficámos ali, até as 16 horas, quando apareceram aviões, que faziam raids por cima da caravana de quatrocentos veículos. À frente traziam uma Berlie com cerca de quarenta militares da UNITA de arma em punho viradas para as bermas da estrada e a bandeira do galo negro ao alto. A meio dessa caravana outra Berlie com tropa de raça branca e do governo de Portugal, (eu prefiro dizer assim do que dizer tropa portuguesa, porque nessa altura tanto os militares dos três partidos como a população em geral, tinham o Bilhete de Identidade português), no fim da caravana vinha uma outra Berlie, ou Hunimog, já não me recorda a marca, com outros tantos militares do Galo Negro. Aproximámo-nos, da caravana, encaixando-nos e lá seguimos. Logo nos primeiros sete quilómetros, a caravana parou e os jactos (MIG) da força aérea, faziam raids por cima de toda a coluna. Durou, mais ou menos, meia hora, ao fim da qual começámos, novamente em movimento e depois de percorrermos dois quilómetros, deparámo-nos com dezenas de corpos mortos a escorrer sangue, na berma da estrada, alguns ainda com armas de lado ou nas mãos e vestidos com fardas do MPLA. O Jorge, meu futuro cunhado, que conduzia a carrinha, desatou a chorar, perdendo a capacidade de continuar a conduzir, entregando o carro ao colega. Lamentando disse: -Andei na tropa e nunca vi nada disto.
Já por essas 22 horas, noite dentro, isolados dos restantes automóveis, na noite escura, fomos mandados parar na entrada da ponte do Alto-Huama. Logo se acercaram de nós meia dúzia de homens armados com armas russas “Calaachenicóves”, envergando a farda do MPLA. Revistaram-nos o carro, conversaram uns com os outros, enquanto eu tremia e sentia a garganta seca com o medo que levantassem o tapete do meu lado, onde eu guardava o meu cartão de militante da UNITA. Se isso acontecesse seria a nossa morte!
Apontaram-nos as armas mas decidiram dar-nos ordem para seguir.
Depois de quatrocentos quilómetros com o coração a bater a 150 pulsações, finalmente chegámos a Nova Lisboa (Huambo).

Gorilas de Virunga



Dos meus 9 aos 22 anos, os amigos que comigo viviam era-mos como unha e dedo. Era, também, com eles que sentia e ouvia o cheiro e o som de centenárias árvores que o vento lhes fazia deslocar a ramagem e que ao mesmo tempo se misturava com os gritos e cantares de centenas de espécies de animais e pássaros, onde não faltavam macacos de várias espécies. Foram eles os culpados pela paixão que sinto por África, nomeadamente do local onde vivi. O amor que sinto por aquele local é tão grande que ao ler na “NATIONAL GEOGRAPHIC” de Julho de 2008 o artigo “Quem matou os Gorilas de Virunga?” o meu coração batia e os meus olhos deixavam escapar lágrimas ao sentir aquele local idêntico ao de onde vivi. É revoltante, as atrocidades que têm sido praticadas por toda a África! Os animais e toda a fauna não têm culpa da estupidez do homem!

O AMOR NÃO TEM COR


amor é um moinho
Mói, mói, mói,
O amor é um carinho
Que dói, dói, dói.

Não há dor que mais doa
Que a dor do amor,
Dói no preto, dói no branco
É dorzinha que não tem cor.

Foi triste, muito triste... a despedida de um amigo!!!



À chegada à cidade, deparámo-nos com milhares de pessoas que se aglomeraram na FINOL (Feira Industrial de Nova Lisboa), com a protecção da Cruz Vermelha Internacional.
Nós tivemos a sorte de ir habitar para uma vivenda de uma família do meu futuro cunhado Jorge, que já tinha fugido, porque o ambiente na cidade também já estava arrasador.
De noite não havia um só minuto em que não se escutassem por todos os lados, rajadas de metralhadoras e morteiros 81 que assobiavam por cima de nós e, que ao embaterem no chão provocavam um grande estrondo e toda a cidade estremecia.
Havia por toda a cidade um movimento assustador de veículos carregados de homens com fardas de militares e armas, metralhadoras e lança morteiros apontados para as bermas da estrada e prédios.
Um dia, estava eu sentado no triciclo em frente à casa, no passeio, quando um dos veículos de guerra passou e qual não foi o meu susto quando o vejo, quase ao fundo da rua, fazer inversão de marcha e voltar para o sitio onde me encontrava.
Tremi como ninguém consegue imaginar, pois o veículo parou mesmo ao meu lado.
Um dos ocupantes, bem fardado e de arma em punho, saltou e veio ter comigo.
Ao aproximar-se esticou-me a mão e disse:
-“Menino Zé, tu também está aqui?”
Olhei e apertei-lhe a mão.
Era o Domingos Januário, um dos meus amigos a quem ensinei a ler e escrever.
Perguntei-lhe como é que ele estava lá na UNITA!
Respondeu-me que tinha saído da Cananguena, ainda antes do conflito na Gabéla e ingressou na UNITA como militar, mas como a UNITA abandonou a Gabéla na altura que os brancos saíram para Nova Lisboa ele lá estava.
Dei-lhe um abraço, enquanto as lágrimas me corriam no rosto acenei-lhes com a mão como a dizer-lhe:
“Adeus, até nunca mais!”.
Foi triste! Muito triste!




quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Milhares de seres humanos morrem todos os dias















O direito à dignidade humana, aos princípios básicos de sobrevivência, à saúde, aos cuidados básicos, a viver livremente e manter a sua integridade jurídica são alguns dos pontos de partida, que a princípio deveriam existir em pleno século vinte e um, para todos os Homens. Pura e descarada mentira. Provavelmente mais de 65% da população não tem a maior parte destes pressupostos.
A maior causa de morte no mundo continua a ser a fome, quando nos parece incrível que com todos os recursos que existem, ainda se morra à fome. Também me parece incrível tudo o que se tem passado no Haiti. Dá-se uma catástrofe, e de repente, surge uma onda mundial por parte do povo, de solidariedade, quase como expiação de todos os pecados, como forma de se sentirem bem consigo próprios, a querer algo pelo Haiti.
Quero deixar bem claro antes de tudo, antes de lerem o que vem a seguir, que respeito a vida humana acima de tudo, e a dignidade humana. Não me peçam é para pensar pela cabeça dos outros e baseado em sacionalismo quase obsceno, de crueldade intolerável, que as noticias nos vão bombardeando para encher jornais e ganhar audiências me tolde o pensamento.
É um ultraje o que se tem passado com divulgação de propaganda que nada tem de humanista, nada tem de legitimo, nada tem de nada. Custa-me rir de quem pede minutos de silêncio, de quem pede para as pessoas fazerem donativos, de quem pede ajuda para os haitianos. Então, assim de repente, esta é a única desgraça no mundo inteiro, e nada mais de grave se passa? 50 mil? 100 mil? Deixem-me rir e sabem porquê? Alguém sabe dizer-me quantas crianças (leram bem, crianças, e apenas crianças) morrem por dia à fome na Somália, que é apenas um pequeno país? Não sabem, pois não? Pois posso dizer-vos segundo estudos de entidades de ajuda humanitária morrem por mês mais crianças na Somália que na Europa inteira em um ano! Depois, e voltando ao Haiti, alguém sabe quem tem o dever e obrigação de ajudar? Existe apenas um grupo que tem obrigação de ajudar e assegurar a devida construção de território, que é o grupo dos países desenvolvidos. Ponto final.
Todos pagamos impostos e pagamos o suficiente, pois em caso de catástrofe beneficiamos de uma verba e ajuda mundial, para o efeito, assim como os países menos desenvolvidos também beneficiam disso. Por falar em menos desenvolvidos, como se chama a uma população que está a precisar de ajuda e faz barreiras com cadáveres como forma de protesto à falta de ajuda humanitária, e que pilha, mata e viola a troco de comida e bens? Como? Animais? Ouvi bem? Parece-me que sim. Nem todos serão, é certo, mas existe uma grande fatia de haitianos que não se têm portado nada bem para quem precisa de ajuda e está numa posição difícil, por isso quando levarem comida, viveres, medicamentos e outros bens, não se esqueçam de levar uma arma carregada porque nunca se sabe como o Homem se porta em condições adversas. Eu sei uma coisa, por muito difícil que seja a condição humana, acho que quando existe evolução, cultura e união (tal como já foi demonstrado na história por muitos povos) existe sobrevivência, existe entreajuda, existe que da destruição nasce a mais bela flor.
Custa-me imenso ver a indiferença do mundo em relação a imensos países que precisam de ajuda durante todo o ano. Custa-me ver as grandes potências patrocinarem guerras em vez de prestar ajuda humanitária. Abomina-me ver alguns países a aproveitar a desgraça dos outros para se aproveitarem de recursos, acordos de publicidade.
O mundo não está unido ao contrário do que fazem parecer, o planeta está doente de uma doença chamada “ganância”, que já falei em outros artigos, é a pior de todas as doenças. Ajoelhemo-nos pois, porque pecamos em demasia e onde não se vê. Porquê tanta ipocrisia, se para o mundo desenvolvido, e que agora com esta pequena tragédia, vem demonstrar que querem ajudar, ajudar um povo que já vivia há muito de fome e miséria, e que, para essas superpotencias até lhe interessa que essas calamidades existam porque, através delas, vão buscar grandes devidendos.
São estas e muitas outras que vão pelo mundo que faz sentir em mim, cada vez mais, o desejo de ser SELVAGEM.